Review: “Culture” por Migos

Fala aí, seus problematizador de marchinha! Menino Hussein divertindo suas quartas tipo ver o Botafogo tomando sacolada na próxima fase da Libertadores, e hoje a resenha é sobre o primeiro grande lançamento de 2017. Além de possuírem um dos melhores nomes de grupo da indústria musical, os crias de ATL que compõem o Migos são possivelmente os expoentes mais notórios da cena atual de trap. Depois que até o Papa Francisco embrasou ao som de “Bad and Boujee”, o disco que será analisado nos próximos parágrafos ganhou um hype de proporções astronômicas. Pra analisar o Culture, porém, é necessário mais que o ouvido afiado da equipe mais merda do rap: a gente vai dar toda uma passeada pela tal cultura. Entendeu nada do que eu disse né? Então para de mandar pergunta idiota pro Santi no CuriousCat e lê a porra do texto aí. 

Quem acompanha a cena de rap sabe que ainda há resistência e um certo preconceito com o trap por parte de uma parcela de ouvintes mais conservadores. Há quem alegue que o subgênero é repetitivo, genérico e vazio de conteúdo artístico, e de fato têm uma caralhada de rapper aí reproduzindo isso tudo que os críticos falam. Só que o caso do Migos é exatamente o oposto: não estamos diante de três ignorantes, pelo contrário, e o conceito artístico do álbum já prova isso de cara. A capa do Culture, além de pica pra carai, faz uma grande referência aos filmes blaxploitation americanos que, pra quem não conhece, eram filmes feitos com atores negros pro público negro e que, embora fossem criticados como estereótipos da cultura afro-americana, eram constantemente sucesso com os críticos, além de gerar uma grana do carai com os espectadores e ainda deixar um legado pra cultura negra que vive até hoje (músicos como Curtis Mayfield e Isaac Hayes compunham várias soundtracks desses filmes, e seus discos hoje são referência pro soul além de fonte infinita de samples).

Aí ces me perguntam “por quê ce falou essa porra toda da capa Huss?” Acontece que, além da capa saudosista, o próprio nome do projeto já fala por si só: com o Culture, o trio sulista quer fazer o mesmo que os filmes blaxploitation faziam: sintetizar a cultura de rua da época, mapeando todos os trejeitos e os temas que entretém a população afro-americana. Não demora muito pra você notar que há no disco tudo que ce já espera de um projeto de trap: ad-libs comédia, ênfase maior nas levadas do que nas letras, 808 pocando e a presença notória do autotune. E já que tem isso tudo que a gente vê na cena, qual seria o diferencial do Culture? Aí que entra o padrão de qualidade e criatividade Migos: eles vieram sem medo de inovar e arriscar aqui. Depois de infectar o rap com o triplet flow, os caras tão cada vez mais ousados.

Se antigamente tinha gente que não conseguia discernir qual Migo era quem, nesse disco cada um consolidou sua própria identidade: o Quavo vem liderando nos refrões e é o que mais usa autotune durante o projeto; o Offset é o cara mais “solto” nas tracks, o que tem uma entrega mais diversificada e que até arrisca uns esquemas de rima complexos; e o Takeoff que vem sempre com linhas pesadas e o flow robô característico (no bom sentido, porque tem uns flow robotizado aí que só fumando muito balão pra aturar). Ao longo da audição, dá pra perceber que, se eles se empenhassem em fazer algo mais lírico, dava pra extrair um bom resultado, até porquê os três tem highlights (o Quavo quebra na “Slippery” e na “Brown Paper Bag”, o Offset vem solto no disco todo, com destaque pra “Bad and Boujee” e na “Call Casting”, e o Takeoff rouba a cena durante os quase 60 minutos de álbum, como por exemplo na “Get Right Witcha”, na “Big On Big” e na “Out Yo Way”. Vale destacar também a “Kelly Price”, que tem feat do queridinho Travis Scott. Mesmo com o current king do autotune (cuja influência no disco também é bem visível), nenhum dos três passou vergonha recorrendo a melodia, e isso resultou num dos melhores sons do disco. Quem chamava os caras de unidimensionais tomou um cala boca com o Culture nas ruas.

O clima cinematográfico também foi garantido nas produções. Beats como o da “Big on Big” e da “Deadz” são dignos de trilha sonora, e dão um clima bem classudo e interessante mesclando elementos do trap com instrumentos e composições não muito comuns dentro da cena. Também há bangers como o da “T-Shirt” e da “Slippery”, e bases mais calmas, como as da “Get Right Witcha”. Algumas dessas produções foram assinadas por nomes cascudos como Zaytoven, Metro Boomin, Murda e Cardo, os quais não decepcionaram. Uma das minhas preocupações era em relação aos feats, mas nenhum convidado chegou a estragar de fato as tracks. Tá certo que o Lil Uzi Vert era bem descartável na “Bad and Boujee”, mas com paciência e amor no coração até que dá pra tolerar ele. Travinho e 2 Chainz simplesmente quebraram nas tracks em que apareceram, e o Gucci Mane chegou com um verso no ponto na “Slippery”. Sem deixar de lado, é claro, o DJ Khaled berrando logo na primeira faixa do disco, já dando aquela injeção de hype nos ouvidos.

Ao fazer o Culture, o trio de Atlanta veio com um único objetivo, que era de entreter o público durante todo o álbum, e a meta foi batida. Antes julgados como repetitivos, os muleques de dread provaram que fazem mil tipos de trap, arranjam mil flows e inventam mil nomes pra apelidar as drogas deles, isso tudo sem perder o valor artístico. Com esse disco, os Migos corresponderam à toda essa expectativa posta em cima deles nos últimos meses e provaram que o estoque de hits tá longe de acabar. E é isso mes amis, não fechem a aba do blog porque tamo vindo cheio de texto mais certeiro que o Gabriel Jesus nessa temporada. Até!

 

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