Review: “Do What Thou Wilt.” por Ab-Soul

Coé, seus Saída de Bola de Qualidade Memes! Menino Hussein aqui pra fazer um feat especial na review do Do What Thou Wilt. Esse disco tinha deixado eu e o Vinar num hype do carai pra ouví-lo e, logo quando saiu, a gente viu que tinha um lance bem denso e complexo por trás dele, e aí decidimos escrever essa resenha em conjunto pra que nada passasse em branco. O rapper californiano veio abraçando o ocultismo e outras temáticas bastante polêmicas, e o resultado foi bem controverso por parte do público e da crítica. Vai descendo a bolinha do mouse ai e vê o que nois conseguiu observar no DWTW.

 

Vinar: O álbum tem uma construção muito inteligente, em vários momentos e em tracks diferentes você vai pegar uma ideia complementar a ideia de outra track, e não necessariamente a ideia central da track, até mesmo o pensamento mais vago e mais tímido dentro do álbum tem lá sua importância no decorrer do álbum.

Soulo dá o pontapé inicial com “RAW (backwards)” um jeito bem agressivo de se começar o álbum, declarando guerra aos rappers (Dois em especial) e com BARRAS e muita técnica. E isso se prolonga pelas duas tracks seguintes, a “Braille” e  a “Huey Knew THEN”, essas duas trazem linhas que eu, sinceramente, tava com muita saudade de ouvir: Punches estúpidos (Como ele mesmo diz no álbum, “Stupid meaning genius“), mas que são tiradas inteligentes e que te arrancam uma risada ou um “WOOOW”. Além disso, destaque pra interpolação da abertura de “Um Maluco no Pedaço” na “Huey Knew”. (Leiam as anotações do Genius, caso não peguem a linha)

Might pay your rent if you suck good dick
And you know what our time apart meant
 (“Braille”)

Seguindo em diante temos “Threatening Nature” que é um dos sons mais dark do projeto todo em questão de sonoridade, e onde Soul começa, mesmo que sutilmente, a desenvolver as ideias principais do álbum; É onde ele toca em assuntos como sexismo, algumas colocações sobre religião e até mesmo a ideia de “Deus ser uma mulher” que perdura por quase todo o álbum, mas até então, muito leve e cê pode até nem perceber ou ignorar nesse primeiro momento. A faixa seguinte traz outro aspecto muito interessante também no álbum que é o conflito de ideias do próprio Soul, já que na faixa anterior ele deu algumas colocações sobre o sexismo a última coisa que você esperaria que ele fizesse era um som sobre comer mulher pra carai, não é? E ele fez exatamente isso, “Womanogamous”, é aquele banger a la Ab Soul, vários punches no meio, um refrão grudento com o ScHoolboy Q (Coisa que lembra pra caralho a “Druggys WitH Hoes Again” – procurem conhecer essa faixa, caso não conheçam)..

I went digital
Yo shit we don’t dig at all, we just dish if off
You know I gotta eat
My bitch got cakes and I’m getting that brain
That’s food for thought
  (“Braille”)

Indo mais adiante (Sim, isso tá virando um faixa a faixa), uma das mais favoritas do álbum “INvocation”, ela não acrescenta muito na “temática” do álbum mas a sonoridade dela é muito foda assim como o brag dele na faixa e as técnicas, sacadas, enfim. Tem wordplay até no refrão. O instrumental puxado pro free jazz ficou muito louco, e encaixo perfeitamente com os vocais do Kokane e com o flow do Soul. “Wifey vs. WiFi / / / P.M.S.” é uma faixa bem interessante, na primeira metade, Soul versa sobre estar numa relação e se sentir “preso”, e na segunda metade, a gente tem um “detento” (O famoso BR3) mandando um free (E que free!) pros seus companheiros de prisão, e no refrão desse free, sim, o cara fez um refrão, ele se questiona o porquê de ter perdido o julgamento e isso nos leva pra próxima faixa, a “Beat the Case / / / Straight Crooked”, onde na primeira metade  Soul e ScHoolboy Q num collab muito pica e que lembra muito o que eles fizeram no “These Days…”,  a “Hunnid Stax”: Eles rimam com flows bem parecidos e mandando versos picas sobre “se safar no tribunal”, o que remete a toda aquela ideia da faixa anterior; A segunda metade “Straight Crooked” é um verso meio solto, que fala bastante sobre política, as eleições desse ano, do jeito do Soulo, mano, bem controverso e com linhas inteligentes.

Yeah, ‘fore I had a desktop
Was lookin’ for a shortcut to be an icon
 (“Huey Knew THEN”)

Partindo pra parte final do álbum, temos “God’s A Girl” que se você prestou bem atenção no álbum até agora, vai ver que ele meio que já deixou pistas por todo o álbum até chegar nessa faixa e jogar na cara a ideia de Deus ser uma mulher. A track “Now You Know” também fala mais abertamente de um assunto que antes fora bem tímido na faixa “Threatening Nature” que é a questão do sexismo, misoginia, etc; como de praxe, ótimo wordplay do rapper da TDE e ainda um refrão bem louco e uma referência pica a “Os Batatinhas” no final. E daqui pra frente, o álbum embala uma sequência de músicas 11/10: “D.R.U.G.S.”, um dos melhores singles do ano passado, beat louco, cadência, refrão, enfim, uma das minhas preferidas do projeto; “Evil Genius”, caso cê não acompanhem o Soul já fica o aviso, todas as faixas que ele faz pra namorada dele que faleceu são, sem dúvidas, as mais tocantes dos seus respectivos álbuns, e essa é a do “Do What Thou Wilt”, nela ele retoma a ideia de Deus ser uma mulher, mas não Deus sendo uma coisa boa, pelo menos não nessa faixa… Essa track fala de como ela o fez sofrer por ter se suicidado e o sample de uma faixa que a Alori Joh fez pra ele no final da track é de quebrar o coração, velho. A melhor track do álbum todo pra mim, além de ter essa carga emocional, o beat bem suave e tranquilo, os vocais, o verso, e toda a construção da faixa é muito bonita. “The Law” é uma faixa sobre amor, sim, o amor, essa faixa é mais umas das tantas que foram inspiradas no trabalho de Alister Crowley, sendo mais preciso, no livro “The Book of Law” e adivinha qual essa lei? Sim, o amor seria a única lei. Falando agora sobre o som em si, ela é uma track bem diferente de todas as outras do álbum, ela tem um bounce maneiro, uma batida bem gostosa de se ouvir e traz um clima mais leve, algo muito inteligente de se por depois da “Evil Genius”. E por fim, “YMF”, que é uma faixa mais descontraída que encerra o esse belíssimo projeto, ela não acrescenta muito mais do que o que já foi exposto, mas seus versos meio que resumem o álbum, é um puta final pra um puta álbum.

LAHuss: Ao ouvir o álbum com atenção, dá pra perceber que, ao mesmo tempo que o Soulo delimitou de forma genial os temas que iria ali discorrer, ele meio que falha na execução das ideias, principalmente nas faixas iniciais. A 1ª e 2ª tracks, ao meu ver, falham em diversos quesitos: sonoridade, coesão lírica e temática com o resto do LP, e isso já prejudica um pouco o projeto como um todo. Ouso dizer que, se o DWTW tivesse como faixa inicial a “Huey Knew THEN”, este seria bem mais coeso e enxuto (a longa duração do disco também é um pouco cansativa). Apesar dos deslizes iniciais, a coisa melhora muito conforme as músicas vão tocando. Dá pra perceber que o rapper quis explorar o conceito de grey morality (algo que seria traduzido como “moral cinzenta”, um termo gringo que denota o conflito de um personagem e seus lados “bom” e “ruim”). Um dos temas mais recorrentes das letras do DWTW é a relação do Soulo com as mulheres: ora ele tece comentários bastante sexistas, ora ele endeusa (de forma literal e figurada) a figura da mulher, e tenta se redimir da visão machista que o mundo e o rap o impõem (o outro da “Now You Know” mostra isso de forma genial).

Observando mais atentamente a lírica do Ab-Soul nesse disco, ouso dizer que ali estão as melhores linhas que ele já escreveu. Se você não ouvir com o Genius e o Google abertos muito wordplay e metáfora passa batido e cê nem percebe. É interessante notar que também houve uma preocupação em mostrar pontos de vista diferentes em uma mesma track, principalmente nas que têm transições nos beats. Na “Wifey vs Wifi/PMS”, esse filha da puta consegue interligar as relações na era virtual (RIP Bauman) com o sistema carcerário, e tudo isso se mantendo fiel à linha de pensamento do álbum. Essas justaposições de ideias proporcionam ao ouvinte uns plot twists muito picas, como o que acontece na “God’s a Girl?”: num primeiro momento, cê acha que a música vai se mostrar bastante misógina e herética (o cara me solta a linha “Come and have sex with Jesus”, incorporou o Saramago full mode); mas aí o beat vira e ele começa a falar de outros temas e no fim volta à pergunta que o título da track proporciona, resgatando também elementos da 1ª parte da canção. Highlight do DWTW com certeza.

Ao analisar as produções, a lógica é a mesma já falada sobre as duas primeiras faixas e o resto do álbum: tudo melhora e combina a partir da “Huey Knew THEN”. Tem muito beat foda ali e eles dialogam perfeitamente com as letras do Soulo e o objetivo do disco, que é bem mais sombrio que o Control System, portanto as produções radio-friendly são mais escassas. Ainda assim, é possivel encontrar alguns bangers, como o hit de puteiro “Womanogamy”, a maravilhosa “Lonely Soul” e a fofinha “The Law”. Nas tracks com dois beats, estes também conversam entre si e mesmo quando são bem diferentes, não quebram o clima das temáticas expostas. Isso é perfeitamente notado na “Beat The Case/Straight Crooked” (que sonzão e que feat do Q da PORRA aliás). Existem também músicas com umas produções bem obscuras, como a “Portishead In The Morning” e a “Evil Genius”, mas a escolha destas bases justamente foi feita devido à morbidez e a profundidade das letras ali presentes.

Ainda que o DWTW seja bem melhor do que a maioria das coisas que saiu em 2016, faltou discernimento do Soulo e da label em lapidar melhor o disco (ouçam da “Huey Knew THEN” até a “The Law” e notem que se o projeto tivesse essa duração ele beiraria os tão sonhados 5 shits). Mesmo assim, o cria de Carson mostrou que tecnicamente ainda esculacha quase todo mundo que tá no jogo e que só precisa de uma melhor produção executiva pra se firmar no cenário.

E assim encerramos a review mais longa da história. Manda essa porra pros parças e espera a proxima review que vai vir tão boa quanto pintar com Lukscolor, Lukscolor a tinta da pintura inteligente rende e dura muito mais. #PaganoisLukscolor

 

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