Review: “Sabotage” por Sabotage

sabotaSalveee, seus quase não sai da série B, suave? Shaq aqui pra mais um review neste maravilhoso sitio da interwebs, dessa vez com um documento do rap nacional, uma mais que merecida homenagem ao Maestro do Canão! O álbum póstumo de Sabotage, montado com todo o material póstumo, com uma produção magistral de Daniel Ganjaman e diversos convidados contemporâneos a ele. E pra esse candidato à clássico nada mais justo que uma review faixa a faixa, debulhando cada nuance desse disco magnânimo e já adianto, no fim não tem nota hein, creio que por não se tratar de um trabalho “pensado” pelo artista não nos compete julga-lo, somente apreciar, bom sem mais delongas, bora pro review…

Então o álbum já começa genial e controverso, com uma produção dos TropKillaz, inovando colocando nas letras de “Mosquito” uma base bem trap EDM, com viradas de drum n’ bass, que se encaixaram muito bem com uma descrição da zonal sul já característica do Sabota. A letra traz também as referências musicais e comportamentais da época, citando Chico Buarque e o assassinato do indígena Galdino Jesus.

Passando para a segunda faixa, temos “Superar”, creio que essa tenha sido uma das faixas mais complicadas de ser montadas, de acordo com o processo criativo que havia sido descrito no documentário Maestro do Canão pelo Ganjaman, o Sabota gravava várias guias de letras misturadas e depois fazia as separações. E aqui vemos um pouco disso, apesar da track trazer o título de superar, vai muito além disso, descrevendo como é difícil a vida na sua área e como é muito mais fácil morrer do que ter a oportunidade de se superar. Temos aqui também a participação mais inusitada (?) do disco, Shyheim, que já fez parte do Wu-Tang Clan, trazendo um verso mais braggadocio, sobre o sucesso. A faixa é produzida pelo DJ Nuts.

A próxima não é só uma das minhas preferidas, como uma das mais reproduzidas do disco. Imagine “Canão Foi Tão Bom”, como um daqueles megamix dos anos 2000 que traziam vários rappers quentes na cena, só que agora, ao invés dos rappers do momento, essa track traz os bons e clássicos, temos aqui Instituto, Negra Li, DBS Gordão Chefe (eleito unanimemente pela crew como melhor stage name do game) Lakers e Pá e por último, mas não menos importante Daniel Ganjaman, “rimando” e produzindo. Aqui Sabotage descreve a vida na quebrada, abordando vários temas que implicam no dia a dia de quem mora na periferia, desde as crianças brincando nas ruas, passando pelos políticos interesseiros que vão à comunidade somente na época de eleição até aos amigos que vão pra vida do crime. Uma coisa que chama bastante atenção é a atualidade do tema apesar dos trezes anos do falecimento do artista e ainda termos os mesmos problemas na periferia. Essa faixa também traz algumas linhas em que Sabota utilizou de cacofonias para unir o verso, sem deixar de passar a mensagem. Check it:

Se não tiver fé, tio, se tranca em casa
E não saia, ligue a TV, talvez você vai ver
Pode crer, me ver num outdoor
Querem me pegar pra ló, vê se po-
-De, o menor problema saiba que é maló
Dou valor pros for-
-Ter dó de quem vem se arriscar na vida bandida
O custo de vida dá laço sem nó
Lembra a vó, ó, dá mó dó
Criança na periferia vive sem estudo e só
À mercê da mor-
-two, three, Sabo–
Do mandarim de vol-
-Ta pra rima, voz bem lá em cima, essa é a sina

Chegamos na faixa mais emocional do trampo, em “País da Fome (Homens Animais)” Sabota cospe barras concisas, mandando o um “ensaio” de storytellin sobre um amigo que fica a margem do crime e fazendo um paralelo comportamental dos “homens” que não pensam duas vezes antes de tirar a vida do semelhante, aborda também outras violências e cita alguns parceiros que morreram pro crime, chegando a se emocionar no meio da gravação. Essa é uma das faixas mais tocantes do disco, que inclusive samplea a notícia do assassinato de Sabotage. Quem assina a produção é DJ Cia.

“Maloca é Mare” é mais uma daquelas faixas características do Maurinho, com participação do Rappin Hood, Instituto e Funk Buia, é uma track tipicamente brasileira, com sample de samba, muito provável deve ser resultado das sessões de gravação do disco Sujeito Homem do Hood.

Seguindo em frente, a próxima faixa foi lançada como single, se não me engano pra anunciar o projeto, lá no fim de 2015, junto com “Alto do Zé do Pinho” (que infelizmente não compôs o álbum), essa track também foi utilizada como trilha sonora no filme de “Tudo que Aprendemos Juntos”, de Sérgio Machado. Há uma abordagem totalmente diferente na música, pois Sabota faz a intro cantando ao som de um violão (intro que também é o refrão), outro fato interessante é a Orquestra de Heliópolis ter sido utilizada na composição da base por Daniel Ganjaman.

Com a participação de Dexter, Quem Viver Verá”, é uma das tracks que não curti muito, como havia dito no começo, creio que tenha sido um trabalho extremamente árduo de “montar” todas as guias e transforma-las em música, porém aqui, com exceção do Dexter, os versos não encaixam muito bem com o beat escolhido.

Daqui pra frente, em minha opinião o disco de uma caída, trazendo as tracks “Levada Segura”, que a única coisa a se destacar é a base utilizada feita por Fernandinho Beatbox, “O Gatilho” que é a melhor track desse fim de disco, onde Sabota faz uma dura crítica ao comportamento, consumismo e o excesso de exemplos da televisão, “Sai da Frente” onde temos boas barras e é abordado oportunidades iguais, que está em voga atualmente e “Míssel” em que em uma ótima base, bem boombap, com um loop de saxofone bem discreto, porém muito bem encaixado, Sabota manda um delivery enfatizando abordagens policiais constantes e descrevendo como o abuso de drogas é alarmante na zona sul, Sandrão faz a intro preparando o terreno pras barras de Sabota, e aborda os fluxos que hoje em dia são muito abordados no mundo do funk.

Como eu tinha dito lá em cima, não vou dar nota ao disco, pois não cabe, uma vez que ele é uma grande homenagem à um artista que não teve a chance de se desenvolver completamente e teve guias montadas e transformadas em música genialmente por Daniel Ganjaman. No geral, por várias vezes percebe-se que as gravações não seriam a versão final e algumas partes claramente não são da mesma música intencionalmente, porém, é apesar das gravações (exceto dos participantes) terem sido feitas antes de 2003, os temas são muito atuais, o que prova substancialmente que Sabota era uma rapper extremamente à frente de seu tempo.

Bom rapeize, é isso, se vocês curtiram não fechem a aba que vem por aí vários reviews bolados, não se esqueçam de deixar um comentário e curtir nossa page no Facebook e o canal no YouTube.

Há braços.

 

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3 comentários sobre “Review: “Sabotage” por Sabotage

  1. rapa só uma coisa: noalbum a musica ‘ respeito é lei’ ta com uma versão diferente daquela com a orquestra, na versão do album o beat é só um loop de violão, uma parada mais sutil, sem todo o instrumental da orquestra q tinha na primeira versão

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