Descubra: Dessa

Salve, pessoas que não conseguiram mais jogar Pokémon GO desde a última atualização!

Quem vos tecla é Tiago Messias (sem relação com o mano Jesus) e está na rede mundial de computadores – e outros dispositivos – mais um #DESCUBRA! 

Sem mais delongas, pois isso não é um rap chatão de +4 minutos, a artista de hoje é…

 

RapDex

pokedex
Links: Facebook, Twitter, Bandcamp, Instagram
Descrição: Escritora, formada em filosofia, diretora executiva do supimposo coletivo Doomtree (que talvez seja referenciado mais vezes por aqui), “Ex-lover, ex-friend, ex-communicated atheist, ex-patriot“, Dessa (cujo significado grego de seu pseudônimo alude ao significado inglês de seu sobrenome) transcende denominações de gênero com uma amálgama de rap, soul, folk e jazz. Anteriormente conhecida como Dessa Darling (cuja decisão de abandonar o “queridismo” foi acertadíssima), integrante do trio The Boy Sopranos (com sua parceira de banda, Aby Wolf) e do projeto Gayngs, se destaca pela maturidade artística (“It’s been assumed I’m soft or irrelevant cause I refuse to downplay my intelligence, but in a room of thugs and rap veterans why am I the only one who’s actin’ like a gentleman?“) e pelas belas apresentações orgânicas (poucos no meio do rap atingem tal nível). É uma de minhas artistas preferidas e tem o próprio sabor de sorvete.
Discografia: False Hopes (2005) | A Badly Broken Code (2010) | Castor, The Twin (aludindo ao personagem da mitologia greco-romana, é um compilado de versões orgânicas/mortais de músicas anteriores; 2011) | Parts Of Speech (2013) | Parts Of Speech, Re-Edited (EP com alguns remixes do disco anterior; 2014). Também aparece nos álbuns do Doomtree, tanto nalguns solos de outros integrantes quanto nos registros coletivos.

A seguir, 5 músicas topshow pra iniciar a jornada pelas insígnias líricas desta metade Dorothy Parker, metade April O’Neil (clique nos títulos e veja as letras no Genius):

Fighting Fish (Parts Of Speech, faixa 7)
Utilizando uma analogia com peixes Betta (são “peixes lutadores”, porém, por sua beleza, pessoas querem tê-los em aquários), ela aborda algumas questões importantes enquanto mulher na sociedade (“Women, children, let me tell you: I’ve been both and It’s a myth we all swim for the life boats“) e na arte (“I didn’t come lookin’ for love, I didn’t come to pick a fight; I come here every night to work and you can grab an ax, man, or you can step aside“). O instrumental foi produzido pelo parceiro de coletivo, Lazerbeak. Destaco a linha “I know the culture here is to stay humble but, shit, if we all go round-bowed-heads button-lipped, if none of us go for the belt then who is?“, que questiona o senso distorcido de humildade que, muitas vezes, aliena certas culturas (recorrente no rap nacional, inclusive).

The Man I Knew (Parts Of Speech, faixa 1)
Na contra-mão da glorificação/romantização bizarra que alguns rappers fazem com certas drogas (e que me incomoda bastante), ela narra um relacionamento arruinado pela cocaína (“My back to the wall of your bedroom apartment – you’re talking in circles, got two cigarettes burnin’ – and I couldn’t hide how afraid I was to see you so strange“). O instrumental foi produzido pelos músicos de sua banda. Destaco a linha “Who am I to tell you to come down? Lucky that my palate still prefers a legal poison“, que brinca com a hipocrisia que circunda as bebidas alcoólicas na sociedade.

⋅ Dixon’s Girl (A Badly Broken Code, faixa 4)
Após ficar presa num clube por conta duma nevasca, ela conhece uma artista que está num relacionamento abusivo (“Oh, someone taught your walls to talk“) com um famoso homem da cidade (“You gotta be big to treat pretty girls bad“). O instrumental foi produzido por MK Larada. O vídeo traça paralelos com os bastidores do entretenimento e figuras simbólicas de outras obras, e a letra toca em alguns pontos cruciais: nunca é citado o nome da artista, apenas que ela é “a garota de/do Dixon”, aludindo ao desmerecimento da figura feminina (é comum vermos por aí a troca de “parabéns pelo seu mérito” por “seu namorado/marido tem sorte”). Na linha “I haven’t met too many women in this business that I really like, but you could hold a little liquor, you could hold a conversation, you could hold your own mic“, ela levanta uma questão estrutural: como a indústria fabrica “divas pop” como modelos de sucesso/(ausência de) personalidade/beleza/etc (Iggy Azalea recebendo prêmios como “melhor alguma coisa” no rap parece um exemplo válido), gerando lacunas no espectro de representatividade (“Everybody wanna see you with your hair down, wanna hear you hit the high note, wanna know if they can get you for a little less, girl“). A música termina sem resoluções, pois, de fato, ainda trabalhamos enquanto sociedade (“Back to the wall, bat to the ball, back to the drawing board“), com Dessa reforçando seu apoio à colega, profissional (“It’s not much but my money is on you“) e pessoalmente (“I know how the stones can fly, had some hard goodbyes; call me up, day or night – free drinks and bad advice“).

The Lamb (Parts Of Speech, faixa 8)
A letra coloca-a como cuidadora de um enfermo (“You came up from anesthesia like a diver out of air; surprised to be alive, startled I was there“), com o qual teve problemas no passado (“If they ask me, I’ll deny it but I remember what you did“); em determinado momento, subentende-se que são parentes (“But blood is blood and what’s done is done; yeah, blood is blood and its burden is a beast“) e que, ou ele abandonou ou violentou-a na infância (“While it’s true you were a young man, then I was just a kid“). O instrumental foi produzido pelo parceiro de coletivo, Paper Tiger. Mais uma vez, ela é cirúrgica (!) na abordagem, tratando do peso psicológico de se conviver com um agressor (“Help the monster on two feet, walk him down the hall, repeat – and when he’s strong enough to stand alone you’ll notice what big teeth“), da linha tênue entre a esperança (“They tell me you’ll get better, I don’t know what to say cause they could sew your hands together but they can’t make you pray“) e a convicção da não-mudança de comportamento (“And you give me a look to freeze gasoline; I don’t believe that you’re reformed or you’re redeemed“) e como o desejo de vingança pode torná-la uma agressora também (“But now you’re careful, now you’re good, but do I scare you like I should? Now you’re careful, now you’re good, but I still scare you and I should“). Destaco a linha “You lie expressionless, face set like the Old Testament – silence always your best defense“, que implica duplo sentido sobre ele estar paralisado x mentir sem emoções e o silêncio, tanto dele (“You’ve got a way with words, you got away with murder“) quanto dela (em nenhum momento ela explicita o que aconteceu e não conseguimos odiá-lo), mantê-lo impune.

 Call Of Your Ghost (Parts Of Speech, faixa 2)
Baseada numa história pessoal, a letra narra um encontro com um ex-namorado numa festa de casamento de amigos em comum, o esforço em cumprir contratos sociais (“You brought your new friend, I brought mine – shake hands“) e o desconforto causado por fantasmas do passado e futuro (“I don’t think badly of her, I hope she makes you happy – It’s just a lot to ask to watch your future walkin’ past me“). O instrumental foi produzido por Paper Tiger. É interessante notar que, geralmente, suas músicas “de amor” são sobre relacionamentos quebrados, porém sempre por uma perspectiva madura; no Facebook, ela escreveu uma postagem sobre, certa vez, e foi tão poeticamente visceral que até me fez limpar algumas mágoas – infelizmente, é antiga e não encontrei, mas agradeço-a.

É isso. Espero que tenham gostado e, enquanto descobrem mais, vou ali desenroscar pipas do cabo de energia.

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