Descubra: Milo

Salve, molecada que pistolou com o El-P zoando Pokémon GO no Twitter!

Quem vos tecla é Tiago Messias (não o ex-zagueiro do Treze) e essa é a nova coluna do blog: Descubra (ou #DESCUBRA pra bombar nas redes sociais), onde compartilharei alguns artistas-monstros, catalogados em minha Rapdéx, que habitam o subterrâneo midiático e merecem ser ouvidos/reconhecidos. 

  • Essa série não é sobre reação/análise ou “versos para colorir”, é uma introdução ao trabalho de tais artistas, com dicas e breves explicações. Não sou pai de ninguém, mas o Google pode ser um Grande Irmão.

Esse bang começa com…

Nome: Rory Ferreira
Idade: 24
Lugar: De Chicago à Wisconsin.
Links: Site, Facebook, Twitter, YouTubeBandcamp
Descrição: Vegetariano e estudante de filosofia, começou sua carreira como parte do trio Nom de Rap. Em 2013, fez parte do maravilhoso selo/coletivo Hellfyre Club (que encerrou as atividades em 2015, mas ainda será citado em postagens futuras); a partir daí, criou o próprio selo, Ruby Yacht, cuja característica principal é lançar trampos em fitas-cassete limitadas. Seu estilo pode ser definido como “um Parteum com mais Ousadia & Alegria” – na real, nem tanta alegria. Suas letras são intimistas e cheias de poesias cotidianas e referências de “cultura pop” e conceitos de filósofos/teóricos; o tom transita entre melancolia e ironia, tem linhas com múltiplos sentidos bem construídas, mas nada tão abstrato a nível koan (como o próprio diz: “This isn’t Aesop Rock; I’m something like Homer’s boulder“). Seus primeiros trabalhos tem vários instrumentais “emprestados” e/ou construídos sobre instrumentais de outros produtores (o que já gerou reclamações, mas eu ficaria honrado de tê-lo num instrumental meu); costuma escrever títulos com letras minúsculas por ser uma tradição na escrita negra, além de remeter ao fato de escrever sobre sentir-se pequeno, porém, como isso me causa certo TOC, escreverei tudo com maiúsculas. Pra mim, é o melhor letrista surgido nos últimos 5 anos.
Discografia: Greatest Hits Vol. 1 (com Nom de Rap; 2010) | I Wish My Brother Rob Was Here (o título é uma homenagem ao seu melhor amigo, Robert, morto por afogamento; 2011) | Milo Takes Baths (além do trocadilho visual com banhos, o título se dá pelo fato de todas as músicas serem feitas com instrumentais surrupiados do produtor Baths; 2012) | Things That Happen At Day/Things That Happen At Night (EP duplo; 2013) | Cavalcade (2013) | Poplar Grove (Or How To Rap With A Hammer) (sob o pseudônimo Scallops Hotel; 2013) | A Toothpaste Suburb (2014), (Boyle) And Piles (com Safari Al, como RED WALL; 2014) | Plain Speaking (como Scallops Hotel; 2015) | So The Flies Don’t Come (2015) | Too Much Of Life Is Mood (como Scallops Hotel; 2016). Também tem alguns singles e participações na praça.

A seguir, 5 músicas topshow pra iniciar a jornada pelas insígnias líricas deste jovem ferreiro (clique nos títulos e veja as letras no Genius):

⋅ Ecclesiastes (Cavalcade, faixa 7)
Iniciando com um trecho de Degrassi Picture Day, do Open Mike Eagle (que será comentado futuramente), o vídeo faz alusão a morte de Robert, ora como atividade lúdica, ora como catarse (“Since Rob passed, it’s hard not to be scared of flash-floods“). O instrumental foi produzido por Riley Lake e contém sample de Ventura Highway – aliás, todas as faixas em Cavalcade são feitas com samples da banda America. Essa letra é um ótimo exemplo de seu poder de síntese temática/conversão poética, com destaque para as linhas “My girl drinks too many Bloody Marys and I’m a bloody mess – this is how people find marriage” e “You can kill each one of my best friends and I’ll write them songs of my palms like I didn’t fuckin’ notice“.

⋅ Post Hoc Ergo Propter Hoc (For Schopenhauer) (Things That Happen At Night, faixa 5)
Baseado no conceito de Correlação Coincidente (quando algo² acontece após algo¹ e atribui-se que 1 causou 2), ele versa sobre alguns demônios internos, desde o fato de seu pseudônimo ser tirado dum livro até a necessidade de escrever outra canção sobre Robert como forma de redenção, paralelamente, indagando se tais questões são ou não falácias (Schopenhauer usava tal metodologia pra questionar outros filósofos, daí a referência). O instrumental foi produzido por Analog(ue) Tape Dispenser e possui sample de Lag Jaa Gale Ki Phir Ye Haseen Raat Ho Na Ho. Destaco a linha “Straight edge, vegetarian, but I can’t let go of these red herrings“, que brinca com o duplo sentido da falácia lógica e o peixe (ambos os casos são ilógicos em sua realidade). Curiosidade: nossa querida Sasha Grey, entusiasta da filosofia, manifestou-se fã de sua obra e deixou o menino emocionado (ver primeira resposta ao tweet).

Besos, An Exploration Of Sentimentality (Cavalcade, faixa 4)
Safari Al, “o menor doutor do mundo”, apresenta um programa de videoclipes, começando com Open Mike Eagle cantando Qualifiers numa lavanderia (ao que ele responde jocosamente com “Thank you, Michael, for that clean performance”); em seguida, Milo aparece dançando desajeitadamente numa espécie de realidade alternativa computadorizada (como a de qualquer filme setentista/oitentista de/com/sobre hackers). Pode parecer tosco, porém considero genial, pois a letra é uma declaração à uma garota, e, utilizando-se de várias referências bíblicas e teóricas pra expor seus sentimentos, Milo ilustra um conceito do qual sou extremamente partidário: razão e emoção são a mesma coisa, uma energia polarizada. Cenário/letra (razão/lógica) e instrumental/dança (emoção/impulso) coexistem, enquanto ele navega com seu skate num efeito parallax (apenas a tela se movimenta), como se estivesse indo ao contrário da carência cerebral que a maioria das obras “de amor” vomitam, mas ainda envolto na pieguice natural que é estar apaixonado. O instrumental foi produzido por Riley Lake, usando Places como base e samples de Muskrat Love (versão da banda America); soa um pouco bagunçado, mas acaba por reforçar os conceitos citados anteriormente.

The Confrontation At Khazad-dûm (Milo Takes Baths, faixa 1)
Após validar Freud e confrontar os demais letristas (“I hate Freud ‘cause I think he’s tellin’ the truth; I don’t need to be told I’m an animal trapped in a booth – that’s a metaphor for a much lazier writer“), passeia por O Senhor Dos Anéis, Street Fighter, Mortal KombatDragon BallPokémon (ele tem um Squirtle tatuado no braço, possível alusão a Robert e motivo pelo qual foi escolhido pra iniciar essa coluna). O instrumental usado é Aminals. Destaco a linha “I have no enemies, just people who aren’t my friends yet – and when they are I’ll borrow moneys and never repay the debt“, pois parece uma ótima forma de “vingança”.

Folk-Metaphysics (Things That Happen At Day, faixa 3)
Com o título inspirado num conceito de Schopenhauer, ele utiliza o viés metafísico num âmbito popular, fazendo previsões/análises sobre si mesmo e brincando com desdobramento temporal (as ex-namoradas citadas na linha “I don’t make promises I can’t keep, which is why I won’t make promises ever – and when I write letters to those ex-girlfriends that’s going to be the header” podem nem ter sido namoradas ainda). O instrumental foi produzido por Riley Lake e a ponte cantada (a parte com a tonalidade da voz alterada) tem a letra extraída do refrão de One Headlight, da banda de Jakob Dylan (filho de Bob Dylan). Destaco a linha “I don’t know much about Being And Nothingness, but I might just be a being of nothingness“, que implica triplo sentido ao referenciar o livro de Sartre, a questão física de volume molecular e o vazio existencial.

É isso. Espero que tenham gostado e, enquanto descobrem mais, vou ali cuidar do meu próximo EP, pois “Brothers like us don’t live too long, that’s why we have to write so many rap songs“.

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