Review Nacional: “Castelos & Ruínas” por BK

BKReviewFala, bando de David Luiz! Menino Hussein aqui pra dissecar outra obra da nossa cena, e a pauta de hoje não é qualquer trabalho. Falo do debute solo de um dos MCs mais talentosos e surpreendentes da nova geração, e também um dos primeiros artistas que levaram fé na nossa proposta. Desde o ano passado, quando soltou a “Seguimos Na Sombra” com seu grupo Nectar, o BK vem deixando todo mundo que o ouve de queixo caído por sua técnica absurda. Agora, nessa tape/álbum solo (nois num entendeu muito bem o que realmente é, depois cês jogam nos comentários ai) ele veio numa abordagem mais pessoal e pronto pra roubar as atenções. Quer saber se o Flow Zidane se saiu bem nessa missão? DESCUBRA nos parágrafos abaixo.

Eu tava num hype do cacete pra ouvir essas tracks novas, e quando pus o fone pra escutar a 1ª faixa do disco, eu fiquei ao mesmo tempo satisfeito pra caralho e ainda mais ansioso. Estranho pra caralho isso, né? Mas vou explicar o porquê. Logo de prima, o Bikila já começa soltando umas linhas do caralho, com coisas que a gente não costuma ver em qualquer um rapper. Homofonia, variação e originalidade nos flows, jogos de palavras que embaralham a mente, enfim, coisas típicas dele. A ansiedade veio mermo por duas razões: saber se a temática do trabalho ia ficar enxuta e bem compreensível (falo disso mais tarde), e saber se ele ia conseguir manter esse nível lírico altíssimo até o final. O filha da puta conseguiu.

Há coisas bem interessantes e originais na construção das faixas: a forma como ele mescla bem os refrões e pontes cantadas com os versos (coisa que a gente não viu na SNS), e também a maneira com que ele circula entre pensamentos bem profundos e outras linhas que revelam um lado mais superficial, num lance bem conflitante. Ao longo da semana isso deixou eu e o cacique Vinar intrigados em saber se essa justaposição de reflexões íntimas com esses flashes mais “rasos”, criando uma linha de raciocínio meio quebrada era proposital. Na minha singela opinião, isso tudo foi feito por querer, pelo caráter de antítese e de indecisão pessoal que rola em todo o trabalho: enfim, o BK é tão calculista que até esse lance deve ter sido friamente pensado.

A versatilidade do cara no mic é constatada e, mesmo havendo uma ideia central entre as músicas, ele consegue falar de bastante coisa, criando conceitos bem maneiros. Na “Quadros”, ele faz jus ao nome da faixa, e parece que tá de fora descrevendo os cenários que vê pela vida, enquanto ele mesmo tenta deixar sua obra prima. Na “Caminhos”, ele chega ao ápice da dualidade, e uma parada que eu achei muito interessante é como ele conseguiu usar até personagens bíblicos pra ilustrar os estados que sua mente circula. Essa parada de usar figuras mitológicas, históricas e religiosas pra representar as emoções rola em várias outras tracks. Outro momento interessante a ser destacado é a capacidade de personificação mostrada na “Não Me Espere”: o BKína consegue dar um caráter humano a conceitos abstratos como a sorte, a vida e a morte, e introduzí-los como personagens na trama do disco. Enfim, dá pra ficar analisando cara estrofe rimada por um bom tempo, então vou ser mais breve. Das várias linhas que valem a pena serem destacadas, esse 1º verso da “O Que Sobra Disso Tudo” eu achei bem foda e interessante:

O próximo na sucessão do trono, vejo esses comédia tomando um tombo
É a tal maldição, não ouse encostar no ouro do capitão
Não mexa na tumba dos antepassados
Vai virar passado, de engenho tinha nos caçado
E hoje com as filhas deles deixamo o vidro do carro embaçado
A naturalidade em que agimos como água
Pode refrescar, devastar, afogar, destruir
Me cansei, disso aqui, me casei com isso aqui
Não consigo e não posso sair
Amargo igual ópio, B7
Matilha lobos da Etiópia
Cheio de ouro, olhando a viatura
BK pele preta, não na parede, sim nas alturas” (“O Que Sobra Disso Tudo”)

A produção, encabeçada principalmente pelo El Lif e pelo JXNVS tá mais loca que o Batman. Os caras conseguiram dar uma identidade própria ao trabalho, de forma que a sonoridade ficou bem sombria e criou um laço quase simbiótico com as letras do BK, além de te inserirem exatamente no cenário abordado, fosse ele a rua ou a mente do rapper. Bases tanto de trap como de boombap foram usadas, e é interessante como rola uma ousadia de romper com alguns padrões que rolam na criação desses tipos de instrumentais. A conexão que rola entre uma track e outra também é uma parada que eu achei fodona e que dá pra perceber com uma certa atenção (o synth que rola na “Um Dia De Chuva Qualquer” remete ao da “Sigo Na Sombra”, por exemplo). Os beats que mais me saltaram aos olhos foram o da “Amores, Vícios e Obsessões”, “Pirâmide”, e o da faixa-título, no qual o Sain reviveu um sample já usado pelo Sabota com muita originalidade.

Conceitualmente, a linha de raciocínio e a sequência das faixas é bem montada. Os interlúdios caíram benzão e são essenciais pra compreensão da trama (além de terem uns versos picudos). Esse lance de um álbum bem dark, e cuja última faixa tenta criar um ambiente “iluminado” remeteu ao álbum do Pusha T do ano passado, mas não que seja uma cópia fiel, a diferença das abordagens é notável. Acho bem válido destacar os feats tanto da Ashira Wolf (eu quase gozo quando ouço essa mulher em “Quadros”) e do Luccas Carlos nas duas tracks em que participa, muleque tá voando. Enfim, todo esse hype gerado com razão em torno do BK foi correspondido, e arrisco a dizer que no fim do ano esse trabalho vai estar entre os três melhores de 2016. Os pouquíssimos buracos não ofuscaram o brilho construído nessas 13 faixas, e eu já considero instant classic. E é isso mes amis, não fechem a aba do blog porque aí vem mais texto tão foda quanto sala de cinema terça-feira à tarde. Até!

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2 comentários sobre “Review Nacional: “Castelos & Ruínas” por BK

  1. Ae malucada… o que vcs achariam de fazer o REVIEW da Mixtape “SEXO, DROGAS E VIOLÊNCIA DE COSTA A COSTA” do grupo COSTA A COSTA de fortalece-CE…. sei que é antiga mais fez muito barulho e foi quando DON L se destacou nacionalmente…

    valeu!

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