Review Nacional: “RÁ” por Ogi

RAreviewEsse disco mal chegou e já é digno de vários Academy Awards. Não, nao me enganei, não queria falar Grammy, é Oscar mermo. Hoje eu, LAHuss, trago pra vocês leitores simplesmete a resenha de um longa-metragem, um dos melhores do ano aliás. RÁ, o 2º álbum solo do rapper paulista, tá cinematográfico.

O Rodrigo, por meio de suas rimas elaboradas e seus flows viciantes, faz por vezes o papel de personagem principal, assim como dos coadjuvantes e até mesmo das câmeras. Na “Estação da Luz”, por exemplo, sua voz faz a função de lentes e televisões, que captam e transmitem imagens com um realismo incrível. Na “Hahaha!!!” ele usa de suas habilidades de cronista pra descrever um sonho louco que teve, em mais um dos devaneios que os fazem recorrer até a um psicólogo na trama do álbum, em uma situação que ele pensa ser problemática. Não há problema nenhum, Ogizão, pelo contrário: essa habilidade de contar histórias fielmente e ainda adicionar novas sensações é solução pros ouvidos de quem te escuta. Dá pra reparar essa skill do rapper na “Correspondente de Guerra”, onde o tom apocalíptico dado ao que seria um dilema bairrista normal prende a atenção pra caralho.

Por falar em prender a atenção, vamos à trilogia dentro do próprio filme. As “Trindades”, 1, 2 e 3 são uma obra prima. Contando uma mini-história na qual é relatado o auge da capacidade do Ogi de absorver as experiências alheias (como se fosse a Vampira dos X-Men). Uma das paradas que eu mais curti nessa parte do álbum foi a noção do Rodrigo de começo, meio e clímax no fim. Quando ele divulgou a Parte 2 antes de soltar o cd, eu já tinha curtido pra cacete e nem imaginava como ele iria emendar. Aí chegou a Parte 3 e acabou com minhas estruturas (não vou dar spoiler, mas já adianto que é minha preferida e candidata a melhor do ano). A 1ª parte não fica pra trás: o destaque dela é a bela introdução dos cenários e o clima chill que contrasta com a 2ª e 3ª fatias.

Os momentos finais do álbum também me agradaram demais. Senti muita influência do samba das antigas, do Bezerra, João Nogueira e tantos outros, que retratavam o cotidiano da malandragem. E não tô falando só da “7 Cordas” e da “Ponto Final”, que trazem os batuques e a repicada no instrumental (vou me aprofundar nessa parte mais tarde). Tanto a “Chico Cicatriz” como a “Escalada” trazem as biografias de sujeitos que poderiam ser muito bem personagens de um partido alto da Jovelina ou de um pagodão do Zeca. E mesmo com toda essa influência o Ogi não abandona a sina dos versos com mil rimas internas e multissilábicas; é o fino do rap com o fino da música em geral. Essas eu vou por pra tocar até junto com os coroas. E além das citadas ainda tem a comentadíssima “Virou Canção”: essa track é monstra demais. Lek Digão conseguiu dar um tom nostálgico e até meio alegre a um relato bem triste da juventude dele, e que fez muita gente se emocionar e se se identificar. Aí vai um trechinho, tipo trailer de filme mermo:

Tínhamos 15 de idade ou menos
Pensamentos nem um pouco ingênuos
E mano meu torrando a face com 16
É no freebase, terra sem leis é

Ouvindo Racionais eu permitia que
A minha mente se tornasse menos crazy

A vida é uma zona (de guerra)
Onde a morte vai pedindo carona, lona

Saudades eu tenho do tempo
Em que a munição da molecada só era mamona

Vou falar da produção agora, e permitam-me dar uma viajada. Não sei se vocês já ouviram falar no Ennio Morricone, mas esse cara é o músico mais importante da história do cinema. Ele compõe trilhas sonoras de filmes desde que meu tataratrisavô foi trazido ao Brasil pra cortar cana, e é o responsável por clássicos como aquela musiquinha assobiada dos filmes de cowboy do Clint Eastwood. Muitas vezes os diretores pediam pro Morricone gravar a soundtrack primeiro pra depois levarem pras cenas, pra que a música inspirasse a atuação dos caras. NÃO DÊ UM GRANDE FODA-SE PRA ESSA PARTE DO TEXTO, A PARTE LEGAL CHEGA AGORA. O Nave, mais conhecido como Zica dos Beats nas rodas de funk, conseguiu produzir esse disco no nível Ennio. O cara mesmo sem abandonar o boombap, deu uma sonoridade original e nada enjoativa. Se o Ogi se sentiu à vontade pra fazer o que fez, os instrumentais contribuíram bastante. Quando o Nave viu que não dava pra resolver o caô sozinho, chamou grandes arranjadores como Thiago França e Carlos Café. Por falar em chamar, shout out pra Juçara Marçal pelo belo refrão de “Correspondente de Guerra”. Voltando aos beats, uma parada que eu fiquei intrigado positivamente foi o instrumental da “Escalada”. Essa track tem uns elementos de trap mesclados ao beat original, e eu to me perguntando até agora se o Vinicius fez isso de propósito, por causa de todo esse tema de grana e ambição, bem recorrentes nessa cena. Destaco também o lindo trabalho de mix/master no álbum todo (os efeitos do Street Fighter na Trindade 3 tão picas demais por sinal).

Enfim, se isso fosse uma premiação de cinema, o RÁ ia levar todas as estatuetas: Melhor Trilha Sonora, Melhores Roteiros Original E Adaptado (o viado do Ogi conseguiu pôr elementos da vida dele e incrementar com aqueles storytellings já famosos), e até Melhor Atriz pras minas da Trindade 2 (sem mais spoilers), mas hoje ele leva seu segundo cinco shits. Tamo com um instant classic diante de nós, tá aí pra quem quiser ouvir. Nosso rap tá chegando em outro nível, tô em prantos depois desse texto. Não fechem a aba desse humilde blog porque tem mais surpresa por aí. Beijo do gordo, uou.

Nota5

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3 comentários sobre “Review Nacional: “RÁ” por Ogi

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